do sumiço da Galinha

September 9, 2010 § Leave a comment

(2010)

Antes de sumir a galinha resolveu dizer suas últimas palavras. Sumiria, pois, dizer palavras é adequado. Ouvia palavras regularmente, não as dizia, porém. O que se diz logo antes de sumir? piu? Piu é tão… comum. A galinha não queria ser comum, queria ser profunda… talvez. Ser profunda não necessariamente combina com ser galinha. Ser galinha é ser galinha. Galinha é quieta. Galinha não sai falando por ai, nem ao menos nas suas últimas palavras.

De fato, a galinha estava inovando ao falar antes de sumir. Falaria algo aleatório, tipo “pasto”. Uma galinha sumindo e falando “pasto” não é uma cena muito agradável, a galinha pensou. Para dizer “pasto” seria preciso muita personalidade, não tinha. Ter esse tipo de personalidade não é ser galinha. Falasse um poema, um hai cai? A galinha não achava apropriado rimar, rir de seu sumiço. Sumir é trágico, porém silencioso… um poema causaria muita comoção. Pelo menos é o que a galinha pensava, que causaria comoção. Causar comoção, porém, não é ser galinha.

Pensando em suas últimas palavras a galinha sumiu. Sumiu do galinheiro, sumiu da vista de todos que a viam e sumiu do prato que esteve. Aos poucos sumiu da boca e do estômago, sumiu do intestino… até ter sumido completamente.

não proferiu nenhuma palavra, nem ao ser digerida pelas várias enzimas trabalhadoras do corpo humano…

mas ao menos foi galinha.

 

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