da questão de valor

March 7, 2009 § Leave a comment

A viúva estava de cama, doente terminal. “Morrerá em poucos dias”, informou o médico da família ao filho mais velho. A dúvida que atordoava os cinco filhos era clara: e o testamento?

Os filhos mal falavam com a mãe, há muitos anos haviam deixado a fazenda para ir à cidade grande, casaram-se e criaram suas famílias. Eram todos muito diferentes entre si. Haviam perdido contato e levavam a vida independentemente. Quando receberam a notícia de que sua mãe morreria em breve, reuniram-se novamente na casa de sua infância.

Mas a viúva não quis recebê-los. Ordenou que seu escravo não deixasse ninguém entrar no quarto; passaria seus últimos dias apenas em sua companhia. O médico já não viria mais. Apenas um padre a visitava todas as noites e rezava aos pés de sua cama.

Fazia alguns meses que a velha criara fortes laços com o criado, comprado logo após a morte de seu marido. A viúva era uma pessoa difícil: impertinente, mal humorada, mesquinha. De poucos amigos, para não dizer nenhum. A inusitada ligação com o escravo surpreendeu a vizinhança. Quando chegou ao casarão, o crioulo mal falava, apenas cumpria, bem, suas tarefas. Aos poucos foram descobrindo interesses comuns: o jogo de gamão, sentar-se na varanda no fim da tarde em silêncio, a literatura (a viúva costumava ler alto por horas, ele escutando atentamente). O negro a compreendia melhor do que qualquer outra pessoa.

Naquele dia, a viúva sofrera uma recaída, e era certeza de que não sobreviveria à noite.

Os filhos estavam perturbados. Todos já haviam pensado, mesmo que secretamente, em como a mãe dividiria a fortuna. Um queria a fazenda, outro a casa… Inúteis conjecturas. A viúva não queria ouvir nem falar. Insistia em trancar-se no quarto com o escravo.

Como previsto, a velha faleceu quando o relógio do mosteiro dos frades anunciou as onze horas.

Seguiu-se o protocolo. Velório, enterro, horas carregadas de falsa emoção e genuína curiosidade. O testamento foi aberto uma semana depois e se resumia a algumas poucas palavras:

“Deixo minha fortuna dividida igualmente entre meus cinco filhos. Para meu querido e único amigo, deixo minha biblioteca e peças de gamão.”

 

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